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Estatinas se mostram efetivas na prevenção primária de doença cardiovascular em mulheres.

Statins for the Primary Prevention of Cardiovascular Events in Women With Elevated High-Sensitivity C-Reactive Protein or Dyslipidemia – Results From the Justification for the Use of Statins in Prevention: An Intervention Trial Evaluating Rosuvastatin (JUPITER) and Meta-Analysis of Women From Primary Prevention Trials.

Autores: Samia Mora; Robert Glynn; Judith Hsia; Jean MacFadyen; Jacques Genest; Paul Ridker

Referência: Circulation. 2010;121:1069-1077

Fundamentos: Embora o benefício do uso das estatinas em pacientes com doença cardiovascular (DC) manifesta esteja bem estabelecido em ambos os sexos, seu uso na prevenção primária, particularmente em indivíduos do sexo feminino, é ainda controverso (Int J Cardiol. 2010;138:25-31). A presente sub-análise do estudo JUPITER (prevenção primária de DC) avaliou a segurança e eficácia da terapia com rosuvastatina em mulheres. Adicionalmente, foi concluída metanálise acerca do uso destes inibidores da HMG-CoA redutase, enfocando-se o mesmo desfecho acima mencionado, bem como a mortalidade total.

Métodos e Resultados: O estudo JUPITER incluiu 17802 pacientes [mulheres ≥60 anos (n=6081) e homens ≥50 anos (n=11001)] assintomáticos, de baixo risco para DC (sem passado de enfermidade arterial coronária, AVE ou diabetes, LDL colesterol < 130 mg/dL, PCR ultra-sensível ≥2,0 mg/L). As mulheres, além da idade mais avançada, eram mais frequentemente hipertensas e portadoras de síndrome metabólica, entretanto, fumavam menos que os homens. Os parâmetros laboratoriais basais e após o uso da rosuvastatina (20 mg) estão descritos na tabela 1.

Tabela 1:

  Basal   12 meses
Variável Rosuvastatina Placebo Rosuvastatina Placebo P*
PCR us (mulheres) 4,6 (3,1-7,7) 4,6 (3,1-7,6) 2,5 (1,4-4,8) 4,1 (2,4-7,0) <0,0001
LDL(mulheres) 109 (97-120) 109 (95-120) 55 (44-73) 112 (97-127) <0,0001
HDL (mulheres) 54 (46-66) 54 (46-66) 58 (48-70) 55 (46-67) <0,0001
PCR us (homens) 4,0 (2,7-6,6) 4,1 (2,7-6,8) 2,1 (1,2-4,1) 3,2 (1,8-5,8) <0,0001
LDL (homens) 107 (92-119) 108 (92-118) 55 (44-71) 108 (92-123) <0,0001
HDL (homens) 46 (38-55) 45 (38-55) 49 (41-59) 47 (39-56) <0,0001
                                 *comparando Rosuvastatina e placebo (basal e após 12 meses)

As reduções no risco relativo do desfecho primário combinado de IAM, AVE, hospitalização por angina instável, revascularização arterial ou mortalidade cardiovascular associadas ao uso da droga em estudo foram similares (p=0,80 para a interação tratamento-sexo) e estatisticamente significativas tanto nas mulheres (HR, 0,54; 95%IC, 0,37 a 0,80; p=0,002) quanto nos homens (HR, 0,58; 95% IC, 0,45 a 0,73; p< 0,001). As taxas de mortalidade por todas as causas sofreram redução semelhante em ambos os sexos e, apesar de não ter alcançado significância estatística quando os distintos sexos foram avaliados separadamente, ao serem combinados, tal significância foi obtida (p=0,02). As mulheres com antecedentes familiares de doença arterial coronária precoce exibiram benefício mais marcante da terapia com rosuvastatina (HR, 0,20; 95%IC, 0,06 a 0,69). Por outro lado, houve maior incidência de aparecimento de diabetes nos indivíduos do sexo feminino tratados com a droga em estudo em comparação ao placebo (HR, 1,49; 95% IC, 1,11 a 2,01; p=0,008), fato não ocorrido nos indivíduos do sexo masculino (p=0,24). Finalmente, ao analisarmos os resultados obtidos na metanálise, negrita-se uma redução de 1/3 nas taxas de DC associadas ao uso da rosuvastatina naqueles estudos exclusivamente de prevenção primária (HR, 0,63; 95% IC, 0,49 a 0,82; p< 0,001), bem como uma ausência de benefício em termos de redução das taxas de mortalidade (HR, 0,78; 95% IC, 0,53 a 1,15; p=0,21).

Conclusão: O estudo JUPITER demonstrou que a rosuvastatina foi capaz de reduzir o risco relativo de DC em mulheres sem manifestações prévias, achado corroborado por metanálise que incluiu ensaios clínicos de prevenção primária.

Ponto de vista: O estudo JUPITER exibiu uma das mais marcantes reduções nas taxas de DC em um ensaio clínico de prevenção primária, sobretudo por se tratarem de indivíduos de baixo risco de acordo com critérios previamente estabelecidos. As mulheres exibiram modificações semelhantes às exibidas pelos indivíduos do sexo masculino nos parâmetros laboratoriais avaliados, além de uma redução de 46% no risco relativo (p=0,002) do desfecho primário. Na metanálise atualizada, salientou-se redução de 1/3 no risco relativo de DC, bem como uma pequena redução (não significante) na mortalidade total naquelas pacientes, números que contrastam com resultados previamente apresentados (JAMA. 2004;291:2243-2252; Int J Cardiol. 2010;138:25-31). No entanto, a significância obtida na presente análise pode ser justificada pelo maior número de eventos exibidos em ensaios clínicos recentes (JUPITER e MEGA), bem como pelo uso de um desfecho cardiovascular combinado que incluiu o AVE. Vale ressaltar que não houve evidências de aumento na mortalidade por câncer em ambos os sexos, contudo, houve aumento do risco de novos casos de diabetes associado ao uso da rosuvastatina nas mulheres, dado consonante com metanálise recentemente publicada (Lancet. 2010; epub). O curto seguimento dada a interrupção precoce do estudo pelos benefícios obtidos limita seus resultados. Finalmente, uma proporção não desprezível das mulheres incluídas tinha menos de 65 anos e baixos escores de Framingham permanecendo deste modo a dúvida acerca do benefício real da droga em estudo neste subgrupo.

Revisor: Guilherme Attizzani
Email: gfattizzani@hotmail.com

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