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Administração intracoronária de células tronco mononucleares promove incremento na fração de ejeção pós IAM

Effects of Intracoronary injection of mononuclear bone marrow cells on left ventricular function, arrhythmia profile, and restenosis after thrombolytic therapy of acute myocardial infarction – FINCELL study

Confira ao final do artigo a entrevista com Heikki Huikuri, autor principal do estudo

Autores: Heikki V. Huikuri, Kari Kervinen, Matti Niemelä, Kari Ylitalo, Marjaana Säily, Pirjo Koistinen, Eeva-Riitta Savolainen, Heikki Ukkonen, Mikko Pietilä, Juhani K. E. Airaksinen, Juhani Knuuti, Timo H. Mäkikallio.

Referência: Eur Heart J 2008; 29:2723-2732.

Introdução: Estudos recentes sugerem que a terapia com células tronco autólogas derivadas da medula óssea seja segura e eficaz na prevenção de remodelamento e incremento da função ventricular esquerda em pacientes com infarto agudo do miocárdio (IAM) submetidos à intervenção coronária percutânea (ICP) primária. A manutenção desses benefícios após reperfusão química com terapia fibrinolítica, porém, é desconhecida.

Métodos e Resultados: Foram incluídos 80 pacientes com diagnóstico de IAM com < 12 horas de evolução, submetidos à fibrinólise com reteplase endovenosa, seguida por ICP com implante de stent liberador de paclitaxel 2–6 dias após o evento. Eram então randomizados para injeção intracoronária de placebo ou suspensão contendo 360 x 106 células mononucleares derivadas de medula óssea (2,6 x 106 células CD34+), preparadas nas 3–6 horas que precederam o procedimento, e administradas através de cateter balão over-the-wire com insuflação intermitente intra-stent. A eficácia foi avaliada através da mudança na FEVE aferida pela ventriculografia esquerda e ecocardiografia, e a segurança por variáveis de risco de arritmias e reestenose intra-stent aos 6 meses de seguimento. Os grupos não diferiram quanto às características basais, sendo a média de idade de 60 anos, descendente anterior como artéria culpada em 50%, tempo de isquemia de 3 horas, tempo médio entre a trombólise e ICP de 46 horas e FEVE basal de 56%. O tratamento com células mononucleares promoveu incremento global na FEVE, sem aumento na ocorrência de eventos adversos arrítmicos ou reestenose intra-stent (tabela).

Variação entre basal e 6 meses

Células tronco (n=40)

Placebo (n=40)

p

≠ FEVE ventriculografia (%)

7,1 ± 12,3

1,2 ± 11,5

0,05

≠ FEVE ECO 2D (%)

4,0 ± 11,3

-1,4 ± 10,1

0,03

≠ área luminal mínima (mm2)

-0,68 ± 1,51

-1,20 ± 2,06

0,52

≠ diâmetro luminal mínimo (mm2)

-0,23 ± 0,51

-0,31 ± 0,6

0,66

≠ Variabilidade da FC - SDNN (ms)

43 ± 46

53 ± 38

0,42

≠ Batimentos prematuros (hora)

0,4

0

0,53

≠ TVNS (n)

-2

1

0,49

≠ Alternância de onda T positiva

0

2

0,75

≠ Duração do QRS (ms) - ECGAR

-4,8 ± 14,8

-6,9 ± 24,4

0,83

Comentários e Implicações Clínicas: Estudos avaliando administração intracoronária de células mononucleares derivadas de medula óssea, embora representem uma linha de pesquisa intrigante e promissora, carecem de uniformidade no que tange à via e tempo ideais de administração, preparo e armazenagem da suspensão, número total de células mononucleares e CD 34+ a serem utilizadas, o que se traduz na ampla variedade e inconsistência dos resultados obtidos. O estudo BOOST (Lancet 2004;364:141-48), cujos resultados de 6 meses foram encorajadores, falhou ao evidenciar a perda de eficácia na melhora da FEVE medida pela RNM aos 18 meses de seguimento. O estudo REPAIR-AMI (N Engl J Med 2006;355:1210-1221), por sua vez, avaliando a terapia em indivíduos com FEVE = 45% pós IAM, demonstrou melhora significativa na FEVE aos 6 meses. Porém, estudos publicados posteriormente (ASTAMI, TOPCARE-CHD, Janssens et al.) e o recentemente apresentado HEBE trial (AHA08 Scientific Sessions) não sustentaram os mesmos achados. Um melhor e mais aprofundado conhecimento biológico dessa linhagem celular, que possa esclarecer e uniformizar sua aplicação, são fundamentais para que obtenhamos uma resposta definitiva acerca de sua real eficácia e segurança.

Confira agora a entrevista com Heikki Huikuri, autor principal do estudo, com exclusividade para a SBHCI:

Dr. HuikuriSBHCI: Por que os estudos que avaliaram a terapia com células mononucleares derivadas da medula óssea no tratamento de pacientes pós IAM exibiram resultados tão divergentes?
Dr. Huikuri: O momento de administração da terapia celular, a quantidade de células, bem como seu armazenamento foi muito variável, explicando em parte os resultados divergentes. Em estudos negativos, as células geralmente permaneceram armazenadas por períodos relativamente longos. Em nosso estudo, a suspensão foi administrada em no máximo 8 horas após o seu preparo.

SBHCI: Como explicar a FEVE relativamente preservada (média de 56%) em pacientes pós IAM submetidos à terapia fibrinolítica em seus resultados?
Dr. Huikuri: Os pacientes que não apresentaram critérios eletrocardiográficos de reperfusão, permaneceram com dor recorrente ou instabilidade hemodinâmica foram imediatamente encaminhados para ICP de resgate, sendo excluídos da amostra. Assim, incluímos em nosso estudo pacientes de menor risco submetidos à terapia fibrinolítica com sucesso.

SBHCI: Em sua opinião, pacientes com maior grau de disfunção ventricular pós IAM seriam os melhores candidatos para terapia celular?
Dr. Huikuri: Certamente. Em nosso estudo (dado não publicado), apenas os pacientes com FEVE média <57% se beneficiaram da terapia com células mononucleares.

SBHCI: À luz das evidências atuais, temos a resposta sobre qual a melhor forma de administração, tempo ideal e quantidade de células a serem empregadas na terapia celular?
Dr. Huikuri: Não há uma resposta definitiva. A via intracoronária parece-me mais prática que a intramiocárdica na vigência de um IAM. Os estudos que utilizaram menos de 40–60ml de aspirado de células derivadas de medula óssea em geral exibiram resultados negativos quanto à recuperação funcional. De maneira semelhante, também foram negativos os estudos cuja administração da terapia se deu entre 2-3 dias após o infarto.

Revisor: Pedro Beraldo de Andrade, Santa Casa de Marília, São Paulo.

E-mail: pedroberaldo@gmail.com

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