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Trombectomia no infarto agudo do miocárdio: Metánalise de 21 estudos

Referência: Franc¸ois-Pierre Mongeon, Patrick Be´lisle, Lawrence Joseph, Mark J. Eisenberg, Ste´phane Rinfret. Adjunctive Thrombectomy for Acute Myocardial Infarction A Bayesian Meta-Analysis. Circ Cardiovasc Interv. 2010;3:6-16

Fundamentos: A presença de trombo intracoronário durante a angioplastia primária está relacionada a piores graus de fluxo e perfusão miocárdica, ocorrência de no-reflow e trombose de stent, despertando interesse investigativo sobre a trombo-aspiração neste cenário. A trombectomia adjunta à intervenção coronária percutânea (ICP) já demonstrou melhora nos marcadores de perfusão mioocárdica, mas seus benefícios em reduzir desfechos clínicos ainda são questionados.

Métodos e Resultados: Os investigadores conduziram uma metanálise de 21 estudos que utilizaram trombectomia adjunta 'a ICP primária, envolvendo 4299 pacientes. Os estudos deveriam ser randomizados, buscando comparar ICP com e sem trombectomia. Os desfechos clínicos avaliados foram mortalidade e um composto de óbito, infarto e acidente vascular encefálico. Os desfechos angiográficos incluíram fluxo e perfusão miocárdica (TIMI), ocorrência de noreflow e embolização distal. Resolução do segmento ST superior a 50% também foi usada por estar relacionada a mortalidade e insuficiência cardíaca precoce. Seis tipos de dispositivo foram avaliados nesta metanálise. Os dispositivos que empregam pressão negativa para trombectomia foram denominados dispositivos de “aspiração”. Os dispositivos que fragmentam o trombo antes de sua extração foram classificados como dispositivos “mecânicos”. Para avaliar que tipo de mecanismo poderia oferecer maior benefício também foi realizada uma análise separada para aspiração.
Com relação aos eventos clínicos, os aparatos de trombectomia, quando comparados com a ICP convencional, não demonstraram benefício na redução de mortalidade precoce (OR, 0.94; IC 95% 0.47-1.80). O mesmo foi observado na análise dos dispositivos de aspiração isoladamente (OR, 0.58; IC 95%; 0.28-1.22). A trobectomia também não demonstrou benefícios com relação a redução do desfecho combinado, independentemente do método utilizado.
No que diz respeito aos desfechos angiográficos, a trombectomia reduziu significativamente a ocorrência de no-reflow (OR, 0.39; IC 95%0.18-0.69) e embolização distal (OR, 0.46; IC 95%; 0.28-0.70). Os dispositivos de aspiração isolados tiveram benefícios similares nestes quesitos. Já com relação ao grau de perfusão miocárdica, TMPG 3 (TIMI myocardial perfusion grade), a trombectomia foi determinante em sua obtenção (OR, 2.50; IC 95%; 1.48 -4.41). Este achado foi reforçado quando extraídos da análise os dispositivos mecânicos (OR, 3.04; IC 95%; 1.74 5.78). Houve uma evidência para a obtenção de fluxo TIMI 3 com a trombectomia (OR, 1.38; IC 95%; 0.97-2.01).
Um número maior de pacientes atingiu resolução do segmento ST superior a 50% com a trombectomia (OR, 2.22; IC 95%; 1.60-3.23). Observados somente os dispositivos de aspiração, os autores obtiveram resultado semelhante (OR, 2.24; IC 95%; 1.53-3.46).

Discussão: Esta metanálise avaliou os principais estudos de trombectomia adjunta na ICP primária e demonstrou benefícios da trombectomia na perfusão miocárdica, porém sem modificação na ocorrência de eventos clínicos. Estes fatos podem ser explicados pela análise de eventos clínicos somente nos primeiros 30 dias. A melhor perfusão miocárdica poderia levar a menor remodelamento ventricular e menor mortalidade cardiovascular além do primeiro mês. De fato, os dados de um ano seguimento do protocolo TAPAS demonstram que os resultados obtidos aos 30 dias foram sustentados, com redução da mortalidade em 1 ano de acordo com o índice de perfusão tecidual ao final do procedimento (grau 3: 3,7% versus 6,1%; grau 2: 4,7% versus 7,6%; grau 0 ou 1: 11,0% versus 14,8%; p = 0,001). Além disso, a maioria dos estudos desta análise excluiu os pacientes com maior risco como choque cardiogênico ou com doença em tronco de coronária esquerda, onde os benefícios da trombectomia poderiam ser mais evidentes. Estes protocolos incluíram pacientes com risco baixo a moderado de eventos, onde a incidência combinada de óbito, infarto e AVE pode ser de 4% aos 30 dias. Com esta baixa ocorrência de eventos os estudos randomizados não possuem poder estatístico para determinar diferenças estatísticas entre as amostras. Mesmo esta metanálise, apesar de incluir mais de 4000 pacientes, não possuiu tal capacidade.
Os dispositivos de trombectomia podem ser divididos com base em seu mecanismo de ação. A sucção do trombo é denominada trombectomia por aspiração enquanto que a trombectomia mecânica se refere a fragmentação do coágulo antes da aspiração dos debris. É intuitivo supor que cateteres de aspiração menos agressivos evitariam com mais eficiência a embolização distal e deslocamento do ateroma. A aspiração é mais simples de ser realizada e por este motivo, teve uma pequena redução no tempo de sua execução durante a angioplastia primária quando comparada à trombectomia mecânica e promoveu mais evidente benefício na obtenção de TMPG 3. Estudo de De Luca et al. (Eur Heart J. 2008;29:3002–3010) sugeriru que a aspiração manual seria mais eficiente, no que tange à redução de mortalidade, em relação à mecânica. Este fato não foi corroborado pela presente metanálise. As II Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia para Intervenção Coronária Percutânea e Métodos Adjuntos Diagnósticos em Cardiologia Intervencionista classificam a utilização de trombectomia adjunta na ICP primária como sendo classe Iia, nível de evidência B sugerindo que maiores evidências clínicas sejam estabelecidas antes de sua plena prescrição e incorporação na prática diária.
Entre as limitações deste estudo, merecem menção a substancial heterogenicidade do desenho dos ensaios analisados, dos dispositivos de trombectomia e dos desfechos relatados. Finalmente, poucos estudos descreveram tamanho do infarto e eventos em 6 meses para avaliação da metanálise nestes pontos.

Revisor: Carlos Campos
Email: cm-campos@uol.com.br

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