|
Tratamento de lesão de bifurcação
de tronco distal através da técnica de "simultaneous
kissing-stents" utilizando-se 2 stents com eluição
de everolimus
Confira ao final
entrevista com o Dr. Rodolfo Staico acerca do ainda controverso
tema de angioplastia de tronco não protegido.
Instituição: Hemodinamicistas
de Carabobo - Hospital Metropolitano del Norte
Operadores : Guilherme Attizzani/Ramón
Cedeño
e-mail: gfattizzani@hotmail.com
Histórico Clínico: Paciente
do sexo masculino, 68 anos, hipertenso e dislipidêmico,
apresenta história de angina estável CCS II
iniciada há aproximadamente 1 ano para a qual vinha
recebendo AAS 200mg ao dia, Atorvastatina 40 mg ao dia, Valsartan
80mg ao dia, Monocordil 20 mg 2 vezes ao dia e Atenolol 25
mg 1 vez ao dia. Há 2 semanas apresentou instabilização
do quadro anginoso e foi submetido a cineangiocoronariografia.
Angiografia: A angiografia realizada mostra
dominância direita. O tronco da coronária esquerda
apresenta-se calcificado, com lesão distal de 80% envolvendo
as origens das artérias descendente anterior e circunflexa
(foto 01), caracterizando-se uma bifurcação
tipo D de Duke ou tipo 1,1,1 pela classificação
de Medina. A artéria descendente anterior apresenta
lesão de 80% ostial e lesão de 40% em seu terço
médio, demais segmentos sem lesões significativas.
A artéria circunflexa apresenta em seu óstio
lesão de 70% e em seu 1/3 proximal lesão excêntrica
de 70 %, demais segmentos com discretas irregularidades parietais
difusas. O ventrículo esquerdo apresenta contratilidade
global preservada e valva mitral competente. O Syntax Score
do paciente foi calculado em 21. Propusemos ao paciente e
à sua família tanto o tratamento percutâneo
quanto o tratamento cirúrgico, explicando-lhes os riscos
e benefícios de ambos. Ao final, optou-se pelo tratemento
percutâneo.
Procedimento: Cateterizamos o óstio
da coronária esquerda com cateter Vista Brite XB 7Fr
(Cordis) e passamos guia Whisper MS (Abbott) 0,014 para ACX
e guia ACS Hi Torque(Guidant) MS 0,014 para ADA. Realizamos
pré-dilatação de ACX com balão
Sprinter (Medtronic) 2,0 x 12mm com 14 atm (foto 02) e pré-dilatação
de ADA com o mesmo balão a 12 atm (foto 03). Procedemos
então implantes de stents Xience V™ (Abbott)
3,0 x 15mm em ACX com 12 atm e Xience V 3,0 x 18mm em ADA
com 12 atm de modo simultâneo, formando uma nova carina
(foto 04). Injeção de controle evidencia bom
fluxo e ausência de dissecções (foto 05).
Finalmente procedemos pós dilatação com
“kissing-balloon” com balão Voyager (Abbott)
3,0 x 8mm até 16 atm em ACX e balão Voyager
3,5 x 15mm com 16 atm em ADA (foto 06). Injeção
de controle mostra stents bem expandidos, sem dissecções,
fluxo final TIMI III em ambas as artérias. Não
realizado controle com ultra-som intra-coronário pois
não dispomos deste recurso..
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
|
Foto 1
|
Foto 2
|
Foto 3
|
Foto 4
|
Foto 5
|
Foto 6
|
Foto 7
|
Resultados e Conclusões: Paciente
se manteve estável hemodinamicamente durante todo o
procedimento, onde foram utilizados 140 ml de contraste. Permaneceu
por 1 noite na Unidade Coronariana, assintomático,
sem alterações de ECG pós procedimento
e sem alterações enzimáticas e de ECG
na manhã seguinte ao procedimento, quando recebeu alta
hospitalar com AAS 100 mg ao dia, Clopidogrel 75 mg ao dia,
Cilostazol 100 mg 2 vezes ao dia, Atorvastatina 80 mg ao dia,
Valsartan 80 mg ao dia e Atenolol 25 mg ao dia. Programação
de reestudo entre 9 e 12 meses. Manutenção da
terapia anti-plaquetária tripla indefinidamente (por
no mínimo 1 ano).
Comentários: Realizamos tratamento
de lesão distal em TCE em paciente elegível
para cirurgia de revascularização do miocárdio
(CABG), procedimento considerado como classe III pelas Diretrizes
de 2005 da AHA e classe IIB pelas II Diretrizes da SBHCI.
Recentemente, diversas evidências têm dado suporte
à estratégia adotada neste caso, como recentemente
apresentado no TCT 2008 pelo estudo SYNTAX, avaliando o subgrupo
de pacientes com doença de TCE, que mostrou taxas equivalentes
de mortalidade por todas as causas e de IAM no seguimento
de 12 meses quando se compararam pacientes que receberam implante
de stent Taxus™ (Boston Scientific) versus pacientes
submetidos a CABG. Além disso, os pacientes do primeiro
grupo apresentaram taxas significativamente menores de AVE,
entretanto, estiveram sujeitos a maiores taxas de novas revascularizações.
Quando se comparou o subgrupo de pacientes com Syntax Score
(SS) baixo (0-22), como apresentado em nosso caso, os eventos
cardíacos maiores no seguimento de 12 meses ocorreram
em 13% dos pacientes do grupo CABG vs 7,7% do grupo Taxus
(p=0,19), dados que se mantiveram sem diferença significativa
(15,5% vs 12,6% respectivamente; p=0,54) entre os indivíduos
com SS moderado (23-32). Contudo, nos pacientes cujo SS foi
considerado elevado (≥ 33), houve beneficio significativo
do grupo CABG quando comparado ao grupo TAXUS quando se consideraram
ECM no seguimento de 12 meses (12,9% vs 25,3%; p=0,008). Em
relação à escolha do stent farmacológico
de 2ª geração com eluição
de everolimus, não temos dados robustos acerca de sua
utilização neste cenário angiográfico
específico mas, recentemente mostrou baixas taxas de
trombose, comparáveis às taxas exibidas pelo
stent Endeavor ™ (Medtronic) no registro espanhol ESTROFA
2. Além disso, o estudo ISAR-LEFT MAIN também
apresentado no TCT 2008, ressaltou os dados de segurança
e eficácia comparáveis entre 2 stents farmacológicos
de primeira geração no tratamento de TCE não
protegido com seguimento de até 2 anos, o que nos leva
a concluir, de modo especulativo, que a utilização
de um stent farmacológico de segunda geração
que já mostrou sua segurança e eficácia
em estudos randomizados e registros seja também eficiente
e segura para tratar nosso paciente. Finalmente, optamos por
utilizar o cilostazol associado à aspirina e ao clopidogrel
por tratar-se de lesão complexa com grande área
de miocárdio em risco. Essa estratégia (não
sustentada pelos sólidos alicerces das vigentes diretrizes)
já havia mostrado benefício quando comparada
à utilização de aspirina e clopidogrel
em alguns estudos com stents convencionais, em diabéticos
e recentemente em pacientes submetidos ao implante de stents
com eluição de medicamentos no estudo DECREASE,
sem aumento nas taxas de sangramentos.
Conflitos de Interesse: Não há
Confira agora
a entrevista com o Dr. Rodolfo Staico
1-
Dr. Rodolfo à luz das novas evidências, se o
sr. tivesse um paciente com syntax score de baixo a moderado
com lesão em TCE eligível tanto para cirurgia
quanto para tratamento percutâneo qual seria sua primeira
escolha?
É importante salientar que a escolha de qualquer terapia
não é de exclusividade do médico, devendo
ser discutida com o paciente e sua família, expondo
os riscos e benefícios das opções terapêuticas,
principalmente nos casos onde não haja um consenso
na literatura, como nas lesões do TCE. Para a definição
do tratamento de lesões no TCE, é fundamental
a anatomia: localização no óstio e no
corpo do TCE são mais favoráveis do que nas
bifurcações, e minha escolha nesses casos é
sem dúvida a ICP, baseada nas evidências dos
resultados seguros e eficazes, com baixas taxas de RLA nas
abordagens ostiais e do corpo. Outras situações
onde para mim é inequívoca a indicação
da ICP nas lesões de TCE são: pacientes não
candidatos à cirurgia de RM, casos de emergência
(IAM e complicações de ICP) e TCE protegidos.
Já as lesões em bifurcação do
TCE (tipo 1-1-1 de Medina) exigem uma análise mais
minuciosa, devendo a decisão ser baseada também
na experiência do operador em tratar bifurcações.
Para minha decisão, o ponto mais importante é
a CX: 1) sua importância anatômica, 2) sua angulação
com a DA e 3) seu grau de acometimento ostial.
A- se está ocluída, trato o TCE direcionando
o stent para a DA. Se é de pequena importância,
com pequena área de miocárdio em risco, apenas
um fio-guia de proteção é necessário.
B- Se é grande a área em risco, mas com angulação
>60º e não há lesão ostial,
também apenas um fio-guia para proteção
na maioria das vezes é suficiente.
C- Com angulações <60º e/ou pouca
doença ostial, kissing balão provisional é
minha estratégia de escolha.
D- Já quando há grave acometimento ostial,
minha preferência é pelo stent provisional,
sendo o implante de dois stents às vezes necessário.
Quanto à técnica, minha opção
é pelo TAP (''T'' com pequena protusão). São
nesses casos que devemos questionar sobre ICP ou CRM, devendo
a decisão ser uma preferência também
do paciente. Em todos os outros, me parece fácil,
exeqüível e segura a ICP eletiva para o TCE
não protegido em pacientes também candidatos
à CRM.
2- De acordo com as diretrizes da AHA 2005 a angioplastia
de TCE é classe III. O sr. acha que essas diretrizes
devem ser reavaliadas dadas as novas evidências recentemente
apresentadas?
Não tenho dúvida quanto a isso. ICP não
deve ser mais considerada como uma contraindicação
de tratamento para lesões do TCE, pois as evidências
mostram taxas de óbito/IAM semelhantes entra as duas
formas de tratamento. A diferença é a ocorrência
de AVC mais freqüente na CRM assim como RLA nas ICP.
Cabe ao paciente optar por um maior risco de AVC ou por voltar
à sala de hemodinâmica para alguns ''ajustes''.
3- O sr. acha fundamental o implante de stent guiado
por ultra-som no TCE ou crê que basta uma boa técnica
de implante com pós dilatações intra-stent
com altas pressões orientada apenas pela angiografia?
Antes do US, uma boa técnica de implante de
stent deve SEMPRE ser realizada, não apenas com altas
pressões, mas talvez mais importante a relação
balão/arteria adequada, quer para stents farmacológicos
ou não.
O uso do US deve ser individualizado, assim como já
fazemos nas ICP noutras localizações. Acho fundamental
o seu uso no caso de implante de dois stents, principalmente
para a avaliação precisa da boa expansão
dos óstios da DA e CX. Nos outros casos, acho suficiente
o implante guiado por uma boa angiografia, desde que realizado
por operador experiente e que se sinta confortável
e seguro do procedimento.
4- Como o sr. seguiria um paciente que recebesse
uma angioplastia no TCE? O sr. considera obrigatório
um seguimento angiográfico independentemente dos sintomas?
Se voltarmos alguns anos, veremos que faziamos reestudo
angiográfico em todos os pacientes que recebessem stent...
Até que adquirimos segurança suficiente para
abondonar essa estratégia, e atualmente só indicamos
para aqueles com sintomas ou testes funcionais positivos para
isquemia. Acho que nos casos de TCE, ainda não temos
toda a segurança necessária e além disso,
como são poucos os casos, gostamos de checar os resultados
no médio prazo com angiografia, até mesmo como
fonte de publicações. Eu ainda reestudo todos
os meus pacientes tratados com stent no TCE, além de
submete-los previamente a testes funcionais não invasivos.
5- Qual seria sua conduta em relação
a terapia anti-plaquetária pós angioplastia
no TCE? O sr. acha que a associação do cilostazol
poderia de algum modo ser benéfica nestes indivíduos?
Não faço distinção quanto
à terapia antiplaquetária nas lesões
de TCE de uma maneira global, ou seja, 1 mês de terapia
dupla para os stents não farmacológicos e 12
meses para os farmacológicos. Nos casos de bifurcações
(e não só as do TCE) onde foram usados 2 stents
e de acordo com o perfil clínico do paciente, um tempo
mais prolongado de terapia antiplaquetária dupla está
indicado. Ainda não há evidências para
terapia tripla nas ICP, portanto o uso de cilostazol não
é atualmente indicado. Difícil a identificação,
na nossa prática clínica, daqueles pacientes
possivelmente resistentes ao AAS e/ou clopidogrel, onde a
terapia com o cilostazol ou outro antiagregante seria benéfica.
Lembrando que inúmeras pesquisas com novos potentes
antiagregantes (prasugrel, ticagrelor, cangrelor, SCH 530348,
PRT128, E5555) estão em curso e talvez eles possam
acrescentar mais segurança às ICP, diminuindo
as taxas de trombose que ainda nos preocupam.
|