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Parecer sobre o Uso da Tomografia Computadorizada Multislice
como Alternativa no Diagnóstico da Doença Arterial Coronariana
São Paulo, 1 de julho de 2003
Em resposta à crescente divulgação pela imprensa
leiga, à crescente demanda clínica sem subsídio científico,
ao grande interesse da classe médica e da população
em geral pelo uso da Tomografia Computadorizada Multislice (TCMS) como
método alternativo à cineangiocoronariografia no diagnóstico
da cardiopatia isquêmica, a SBHCI vem esclarecer sua posição
através de um parecer. O parecer abaixo foi elaborado com base
em uma extensa revisão da literatura por um comitê constituído
por quatro cardiologistas intervencionistas, sócios titulares da
SBHCI.
1. A tecnologia avança de forma muito rápida, às
vezes em um tempo menor que o necessário para formulação
de sólidas evidências. Qualquer método investigacional
ou terapêutico necessita de um transparente escrutínio ético
e científico que justifique sua aplicabilidade com segurança,
eficácia e custo-efetividade.
2. A cineangiocoronariografia constitui-se no método de eleição
para o diagnóstico da cardiopatia isquêmica, sendo historicamente
o padrão-ouro para a validar métodos diagnósticos
de imagem alternativos. A cineangiocoronariografia possibilitou o desenvolvimento
da revascularização miocárdica cirúrgica e
percutânea e tem evoluído ainda na sua capacidade diagnóstica
anatômica, funcional e prognóstica, através da associação
com ferramentas adjuntas como angiografia quantitativa digital (on-line
e off-line), ultra-sonografia intracoronariana e medidas fisiológicas
(pressure-wire e Doppler flow-wire). A cineangiocoronariografia já
atingiu sua maturidade tecnológica com padrões técnicos
e protocolos consagrados. É um método seguro cujas complicações
são todas conhecidas e estabelecidas. Os riscos de um estudo hemodinâmico
invasivo são baixíssimos. Estes riscos estão relacionados
à gravidade da doença coronariana alvo de investigação,
ou em grande parte devem-se ao uso de contrastes radiológicos que
a TCMS não dispensa.
3. A angiografia não-invasiva através da TCMS, embora promissora,
é um método em fase precoce de investigação
clínica. Não há uniformidade tecnológica ou
protocolos plenamente estabelecidos para a sua execução.
Não elimina duas das maiores limitações do estudo
hemodinâmico invasivo, ou seja, o uso de radiação
ionizante e dos contrastes radiológicos, muitas vezes, inclusive,
em volume superior ao usado na cineangiocoronariografia. Existem no mercado
uma diversidade de aparelhos com características e capacidades
distintas, cujas velocidades variam de 4 a 32 cortes por segundo o que
tem relação direta com qualidade e precisão diagnóstica
da imagem obtida. Ainda assim, a aquisição de imagens com
boa qualidade está condicionada à presença de um
ritmo sinusal de base com freqüência cardíaca em torno
de 60 batimentos por minuto, o que torna muitas vezes obrigatório
o uso de beta-bloqueadores e inviabiliza ou dificulta a sua realização
em presença de arritmias ventriculares e supra-ventriculares, ou
naqueles pacientes com contra-indicação para a droga. Além
disso, a presença de calcificação coronariana compromete
a interpretação das imagens e a presença de endopróteses
coronarianas (stents), pela hiper-refringência das mesmas, torna
o segmento sem condições técnicas de avaliação.
Outro limitante é o diâmetro do vaso, onde aqueles menores
do que dois milímetros são normalmente excluídos
das análises.
4. Com base na classificação de evidências proposta
pela ACC/AHA e referendada pela SBC e SBHCI, qualquer atitude médica,
diagnóstica ou terapêutica, só terá seu emprego
preconizado quando existir concordância geral de que seja benéfico,
útil e efetivo com dados oriundos de múltiplos ensaios clínicos
randomizados (evidência tipo IA). O que existe na literatura com
relação à TCMS são apenas estudos observacionais
com séries de casos, algumas delas com controles históricos
em pacientes clinicamente estáveis e submetidos a exames eletivos
(evidência tipo IIb). Mesmo com amostras altamente selecionadas,
exclusão de pacientes, vasos e segmentos arteriais por dificuldades
técnicas do método (12% a 40%), até o presente momento,
as séries comparativas com a cineangiocoronariografia não
demonstraram sequer equivalência entre os métodos. Uma exceção
se faz no seguimento de pacientes após cirurgia de revascularização
miocárdica onde a visualização dos enxertos arteriais
ou venosos é de muito boa qualidade.
Os melhores resultados com a TCMS foram obtidos em pacientes de baixo
risco, com ausência ou presença mínima de doença
arterial coronariana ou na análise exclusiva das porções
proximais dos vasos de maior calibre, conferindo no máximo um bom
valor preditivo negativo ao método. Até o momento, contudo,
não existem estudos de custo-efetividade que justifiquem o seu
uso no rastreamento diagnóstico ou que tenham demonstrado superioridade
na comparação com os testes provocativos clássicos
de isquemia em populações de baixo risco. Em populações
de médio e alto risco, com doença já estabelecida
ou alta probabilidade pré-teste de presença de cardiopatia
isquêmica, a TCMS não é precisa na quantificação
do grau de obstrução coronariana e na definição
da morfologia da placa. Isto implica na realização obrigatória
de uma cineangiocoronariografia para definir as possíveis alternativas
terapêuticas.
Assim sendo, não há qualquer condição em
que a angiografia por TCMS seja uma alternativa estabelecida à
cineangiocoronariografia clinicamente indicada, em pacientes com suspeita
de doença coronariana ou em pacientes com doença estabelecida
e com necessidade de reavaliação da sua anatomia.
5. Acreditamos que a TCMS, assim como outras tecnologias emergentes,
tem um grande potencial, tornando-se evidente que esta área será
lapidada e evoluirá. Entretanto, não há ainda justificativa
para o seu uso rotineiro quer como teste de rastreamento da doença
coronariana e muito menos como recurso para decisão terapêutica
sobre um eventual procedimento de revascularização miocárdica
cirúrgica ou percutânea. Atualmente, seu uso indiscriminado
pode resultar em avaliações clínicas equivocadas,
acrescenta custos e pode levar o método ao descrédito prematuro.
Esta situação poderá prejudicar o seu pleno desenvolvimento
através do aperfeiçoamento tecnológico, e através
de estudos clínicos de validação controlados de maior
poder e impacto.
Bibliografia consultada
1. 34th Bethseda Conference: Can Atherosclerosis Imaging Techniques Improve
the Detection of Patients at Risk for Ischemic Heart Disease. J. Am Coll
Cardiol 2003;41:1855-1917.
2. Noninvasive Coronary Angiography Using Computed TomographyReady to
Kick It Up Another Notch? Rumberger, JA. Circulation 2002;106:2036-2038.
3. Coronary angiography with multi-slice computed tomography. Nieman
K, Oudkerk M, Rensing BJ et al. Lancet 2001;357:599-603.
4. Usefulness of multislice computed tomography for detecting obstructive
coronary artery disease. Nieman K, Resnsing BJ, van Geuns RJ, et al. Am
J Cardiol 2002;89:913-8.
5. Multislice Computed Tomographic Coronary Angiography: Experience in
a UK Centre. Morgan-Hughes GJ, Marshall AJ, Roobottom CA. Clin Radiol
2003;58:378-83.
6. Reliable Noninvasive Coronary Angiography With Fast Submilimeter Multislice
Spiral Computed Tomography. Nieman K, Cademartiri F, Lemos P, et al. Circulation
2002; 106:2051-4.
7. Detection of Coronary Artery Stenoses With Thin-Slice Multi-Detector
Row Spiral Computed Tomography and Multiplanar Reconstruction. Ropers
D, Baum U, Phole K, et al. Circulation 2003; 107:664-6.
Comitê da SBHCI
Coordenador:
Dr. Carlos Antônio Mascia Gottschall
Ex-Presidente da SBHCI
Chefe do Serviço de Hemodinâmica do Instituto de Cardiologia
do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul, Porto Alegre-RS
Coordenador e Professor do Curso de Pós Graduação
da Fundação Universitária de Cardiologia, Porto Alegre-RS
Membros:
Dr. Breno Oliveira Almeida - Sócio Titular da SBHCI
Médico do Serviço de Hemodinâmica
e Cardiologia Intervencionista do Hospital Israelita Albert Einstein,
São Paulo-SP.
Dr. Rogério Sarmento Leite - Sócio Titular da SBHCI
Médico do Serviço de Hemodinâmica
do Instituto de Cardiologia do Instituto de Cardiologia do Rio Grande
do Sul, Porto Alegre-RS
Professor do Curso de Pós Graduação da Fundação
Universitária de Cardiologia, Porto Alegre-RS.
Dr. Valter C. Lima - Secretário da SBHCI
Chefe do Serviço de Hemodinâmica e
Cardiologia Intervencionista do Hospital São Paulo SPDM
e Hospital do Rim e Hipertensão - FOR, São Paulo-SP..
Professor Associado, Livre Docente em Cardiologia da Universidade Federal
de São Paulo, Escola Paulista de Medicina, São Paulo-SP.
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